Inclusão? Só no papel… Preconceito e discriminação de cara lavada !

Imagine a seguinte situação:
Você está a procura de escola para seu filho, todas elas te tratam como “rei” afinal, elas querem o aluno matriculado em sua escola. Agora imagine que esse seu filho tem 6 anos, é surdo oralizado, não usuário de Língua de Sinais, totalmente incluído na sociedade ouvinte, já bem avançado na leitura e escrita, avaliado por dois profissionais como tendo inteligência intectual acima da média e mais vários pontos a favor dele.
Você está a procura de uma boa escola, de preferência tradicional onde os professores tenham um bom vínculo com a escola e você sinta seriedade no ensino, procura e leva seu filho em algumas das ‘melhores’ de São Paulo e começa a analisar e formar sua opinião a respeito do ensino de uma e outra, afinal, o que podemos deixar para nossos filhos de melhor é a educação.
Agora imagine que você chega em uma dessas escolas, passa por reuniões infindáveis, começa a perceber que há uma certa ‘enrolação’ para dar-lhe algum parecer sobre a matrícula de seu filho e quando você é chamado para mais uma reunião recebe como um tapa na cara a resposta que “Não podemos matricular seu filho aqui pois ele não vai conseguir acompanhar a nossa sala”…
Peraí… Qual o grau de comprometimento intelectual esta criança tem para não conseguir acompanhar uma sala de 1o. ano do ensino fundamental I ??????????????? A criança não era apenas surda ?????
Não, isso não é uma brincadeirinha e não aconteceu no século passado mas sim uma história real e que aconteceu agorinha mesmo, em 2010 em uma das escolas mais tradicionais de São Paulo, o pomposo Colégio Rio Branco unidade Higienópolis, mantido pela Fundação dos Rotarianos.
Ouvi falar ? Não, foi com a minha filha mesmo…
Essa é a situação atual da lei da Inclusão, que em resumo diz que as escolas são obrigadas a matricular qualquer criança em suas unidades e que devem ter profissionais aptos a lidar com as especificidades dos distúrbios e deficiências de seus alunos além de lhes fornecer material apropriado para cada deficiência.
Mas não é isso que aconteceu conosco no Colégio Rio Branco, ao contrário, fomos humilhadas e discriminadas ali pelo simples fato de minha filha ser surda oralizada e não termos escolhido LIBRAS como forma de comunicação.
Em três reuniões que tivemos ali, tentaram me induzir a matricular minha filha na escola para surdos desta mesma instituição de “ensino” onde ela usaria apenas LIBRAS. Agora te pergunto: Que inclusão é essa???? Pois a escola afirma que “esta é nossa forma de inclusão” – Pois para mim isto é exclusão, preconceito, discriminação e não cumprimento de lei que rege a educação no País !
Minha filha foi impedida de ali se matricular com o pensamento retrógrado, preconceituoso e discriminatório de que ela não acompanharia o restante da sala. ( Antigamente os surdos eram tratados assim, incapazes de aprender e ‘ser gente’ ).
Nenhum teste foi realizado com ela para sequer saber em que nível de alfabetização ela já se encontrava ou mesmo foi verificado se ela teria mesmo essa tal ‘dificuldade’ em acompanhar a sala. Eu a estava alfabetizando em casa ( não, não sou pedagoga, mas sou Mãe ! ) e ela já estava começando a ler sozinha e escrever suas primeiras palavras sem apoio de um adulto.
É simplesmente criminoso o ato do Colégio e sua “orientadora educacional”.
Como uma instituição de ensino pode negar-se a atender um aluno, uma criança e ainda mais tentar me coagir ao método de comunicação que eles “acreditam” ser o melhor ? Porém ainda aqui cabe uma ressalva: A tal “orientadora educacional ” (sic) que me atendeu não tem a mínima idéia do que é uma criança surda, não tinha conhecimento algum de como realmente é uma criança oralizada e percebi que o que sabe limita-se ao folder da escola.
Mas, que “diacho” de inclusão é essa ? Onde estão as crianças deficientes dessa escola (unidade Higienópolis) ?????
Obviamente que não me limitei a sair dali com minha filha que ouviu a conversa através das divisórias de Eucatex daquela sala (beeeeeemmmmm surda, né???!!!) e que me indagou ainda na frente da “orientadora”: “Eles nem vão fazer um teste comigo, mãe? Eles não me querem aqui, mas eu que não gostei mesmo desta escola…” – tentando driblar a tristeza de ter ouvido que não era bem vinda ali… Saí sim, mas deixei avisado que isso era crime e que denunciaria a escola no Ministério Público Estadual.
E assim coloquei meus pés para fora daquele prédio frio, onde vi minha filha mais uma vez com lágrimas nos olhos por ter sido discriminada. Ali fora, a caminho de nosso carro, choramos abraçadas uma a outra e ali prometi à ela que eu não me calaria diante daquilo e que daria à ela condições de estudar em um local mais humano e digno da presença luminosa dela.
Fica o alerta aos pais: Não se amedrontem diante das negativas, do preconceito e das pessoas que acham que são donas do mundo… DENUNCIEM ! Botem sim a “boca no trombone” e façam valer os seus direitos e de seus filhos.
Essas pessoas terão o que merecem, isso é fato… E há algo que eu sempre deixo de recado para todas as pessoas que eu conheço: “A gente sempre acha que comigo não vai acontecer…” Mas acontece…acontece com qualquer um e ninguém está livre de ter um câncer, ser atropelado e ficar para ou tetraplégico, ter um filho deficiente, ter perda de visão, ir dormir ouvinte e acordar surdo, ter alguma doença incapacitante…
Pois é, meus amigos… O ser humano sempre acha que só acontece na TV ou na “casa do vizinho”, mas acontece em nossa casa também…
Então, antes de tratar qualquer pessoa deficiente (ou não) com desprezo, zombarias, preconceito, pense que amanhã poderá ser você, seu filho, sua mãe…Nós não estamos livres de nada !
Ouvi de muitas pessoas que eu não deveria “brigar com peixe grande”, “dar murros em ponta de faca”, “perder meu tempo com audiências” e tantas outras coisas…
Oras, me admira que o brasileiro gaste R$ 400.000.000,00 em ligações para votar em paredão de BBB, saiba tudo o que acontece com a vida particular de artista fulano ou beltrano, o que vai acontecer nas novelas daqui duas semanas e tantas outras coisas fúteis mas não “perdem seu tempo” reclamando seus direitos e os da sociedade.
Bem, minha denúncia foi aceita pelo Ministério Público Estadual de São Paulo, onde fui orientada e onde descobri muitos direitos da minha filha e melhor sobre os deveres das escolas atualmente.
Minha pequena foi muito bem recebida em sua nova escola, uma ótima escola tradicional de São Paulo, em frente àquela “instituição de ensino” onde os deficientes são rejeitados, é a aluna mais adiantada da sala e ali é tratada como merece, como uma criança igual a todas as outras. Está muito feliz e me agradece todos os dias pela boa escola em que está, uma escola HUMANA !
Me dói ainda ver que todos os dias ela avista alguns alunos com o uniforme do Rio Branco e diz: “Olha lá, mãe, alunos daquela escola que não me quis…” – Isso será difícil apagar das nossas lembranças.

Semana que vem contarei o desfecho da audiência no Ministério Público !

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9 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Renata
    fev 28, 2011 @ 23:10:20

    Me emocionei com a história.. realmente, pro nível da Amy, a escola não deveria ter recusado, e o pior, nem a submeteu a algum teste… e foram pelas aparências. A maioria das crianças surdas que não tiveram o ic ou oportunidades como a Amy tem alguma dificuldades sim, e necessitam de uma atenção especial, mas a escola deveria saber diferenciar que nem todos os surdos são iguais, cada um com a sua necessidade!! Força, parabéns. vc é uma lutadora, vitoriosa, tanto como a Amy e ainda superarão mtas barreiras. É isso aí, bota a boca no trombone e se conseguir, mande divulgar em algum veículo de comunicações!

    Responder

  2. Lia Ganiko
    mar 01, 2011 @ 14:08:22

    Você está de parabéns, lutadora como sempre, espero que a Amanda possa crescer sempre vencendo e ultrapassando os obstáculos !!! Com certeza vocês ainda colherão grandes frutos !!! E que escolas como o do Rio Branco sejam exterminadas e apagadas do mapa !!!

    Responder

  3. Bruna Motta
    mar 13, 2011 @ 23:01:27

    Sheila, estou curiosa em saber como foi resolvida essa situação, pois a última vez q nos falamos pro MSN foi o dia em que vocês foram na tal escola!! Sou pedagoga e atuando como professora, além de mãe de uma criança usuaria de AASI. Acho um absurdo que ainda hoje uma escola “oriente” uma mãe a excluir sua filha da sociedade e pior ainda negar a essa criança um direito que é seu por lei, o de estudar numa boa escola. Mas diante do ocorrido vê-se que essa escola não cabe na lei, pois não deve ser considerada uma boa escola. Com condições de aprendizagem!! E enquanto mãe, sinto muito pelo que vocês passaram, principalmente a Amanda…. Beijos grandes e muitas saudades!!

    Responder

  4. Adriana da Silva Souza
    mar 16, 2011 @ 21:52:27

    Parabéns pela iniciativa, Sheila!

    Responder

  5. Lina
    mar 29, 2011 @ 13:36:01

    Sheila, parabens pela forca, pela coragem!! Sou Mae da Luna de 9 anos, implanatada aos 3 anos de idade no Japao, que mora ha 2 anos no Brasil. Eh incrivel como no Brasil o preconceito eh gritante, como o governo eh omisso e as pessoas sao ignorantes!
    Vc disse uma coisa muito importante, o deficiente auditivo, nao tem limitacao intelectual, e as escolas parecem nao compreender isso. Eu vivo comprando briga por esse motivo aqui tambem.
    Muito sucesso para vc e sua filha!

    Responder

  6. Débora
    jun 01, 2011 @ 19:34:13

    Olá, Sheila! Primeiramente, PARABÉNS pela iniciativa! Tenho certeza de que muitos pais e mães ficarão mais motivados em lutar pelos direitos de seus filhos! E é dessa forma que derrubam-se as barreiras provocadas pelo preconceito!!!

    Aproveito a oportunidade para contar-lhe que sou responsável pelo blog denominado “Sopa de Números na Educação Inclusiva” – que aborda temas como a Educação Inclusiva, Tecnologias Assistivas, Acessibilidade e Inclusão. Dê uma olhada: http://www.sopadenumerosecalculos.blogspot.com

    Um abraço!

    Responder

  7. Rafaela Borsato
    jan 28, 2012 @ 20:20:47

    Sheila, não sei se me indignei ou me emocionei mais e em que proporção isso me irritou profundamente . Confesso que bastante, pois sou mãe de um filho maravilhoso, usuário de AASI e minha atitude não teria sido diferente da sua!
    APOIADÍSSIMA! Que exclusão absurda é essa?! Que inclusão é essa que limita o direito dos nossos filhos de seguirem pelos mesmos caminhos de tantos outros unica e exclusivamente por não usarem libras? Meu filho fala perfeitamente, nunca usou libras, nem sabe oq é , e por isso é excluído dos seus direitos? ABSURDO!
    Espero que as autoridades sejam justas e penalizem duramente esta instituição que magoou tanto a sua filha! Desejo a vcs toda sorte e muito sucesso para sua pequena!!! Bjs Rafa e Tom

    Responder

    • Sheila&Amanda
      abr 05, 2012 @ 17:10:59

      Olá Rafaela,
      O processo continua tramitando no Ministério Público Estadual e eu não abro mão de retratação. Sabe, cansei de levar “tapa na cara” dos “normais e perfeitos”… Vou até o fim nessa luta e tenho pensado seriamente se vou mover uma ação por danos contra eles…
      Bjos à vocês

      Responder

  8. Rose
    ago 15, 2013 @ 15:51:40

    Voce foi maravilhosa. Lute sempre por seus direitos, sua filha vai aprender muito com voce. Sou pedagoga, trabalho em uma escola municipal e tenho 4 inclusões que, juntos com os outros alunos, são meus amores.

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